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O Impacto da AME Tipo 3 no Brasil: Resultados de um Estudo Centrado no Paciente

Um mapeamento inédito revela como a Atrofia Muscular Espinhal Tipo 3 impõe barreiras funcionais, emocionais e econômicas profundas que desfechos clínicos tradicionais não conseguem mensurar.

Uma mensuração sistemática dos impactos multidimensionais da AME Tipo 3 no contexto brasileiro

Medir o progresso ou a estabilização de uma doença neuromuscular vai muito além de avaliar a força muscular em uma consulta de rotina. Quando olhamos para o dia a dia de quem vive com Atrofia Muscular Espinhal (AME) Tipo 3 no Brasil, a perda progressiva da mobilidade física se entrelaça com um cenário complexo de exaustão, isolamento e custos elevados.

 

A pesquisa revelou que as preocupações não são estáticas: enquanto a infância é marcada por um peso psicossocial silencioso, em que o medo da queda, a insegurança e o estigma social afetam diretamente a saúde mental e a convivência na escola, a vida adulta cobra seu preço na perda da independência diária. Para os adultos, a incapacidade de realizar tarefas simples sem ajuda, aliada à falta de acessibilidade urbana e aos altos custos de adaptação, transforma a rotina em uma constante busca por autonomia.

 

Clique abaixo e veja os principais resultados:

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Como o estudo foi realizado:

Para capturar a experiência real da doença sem os vieses de questionários genéricos, a pesquisa utilizou um estudo de Métodos Mistos (Mixed-Methods), com a coleta de dados quantitativos, qualitativos e o mapeamento de barreiras:

  • Técnica de Grupo Nominal (TGN) Virtual: Aplicação de método de consenso em reuniões estruturadas para priorização e ranqueamento das dificuldades enfrentadas.

  • Análise Fundamentada na CIF/OMS (Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde da Organização Mundial da Saúde) : Classificação de cada relato utilizando o modelo da Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde da Organização Mundial da Saúde.

  • Amostra Representativa: Envolvimento direto de 8 pacientes adultos e 5 cuidadores de pacientes pediátricos de diversas regiões do Brasil.

Característica dos participantes

Infográfico dividido em duas secções principais com dados demográficos e clínicos sobre a AME Tipo III. A secção azul, à esquerda, apresenta o perfil de 5 familiares de pacientes pediátricos, com estatísticas sobre idades, escolaridade, início de sintomas, tratamentos e um mapa com a distribuição no Brasil. A secção salmão, à direita, detalha os mesmos indicadores para 8 doentes adultos com AME Tipo III.
A necessidade de dar voz a quem convive com a AME Tipo 3

Historicamente, há pouca evidência científica detalhada sobre a experiência de vida e as reais prioridades de quem lida com a AME Tipo 3 no Brasil. Medidas convencionais de desfecho clínico costumam falhar ao não captar o real peso da exaustão diária, da falta de acessibilidade urbana e das barreiras sociais (como o preconceito).

O objetivo deste estudo foi preencher essa lacuna:

  • Identificar prioridades reais: Mapear o que mais afeta a qualidade de vida a partir da perspectiva de adultos e cuidadores de crianças com AME Tipo 3.

  • Subsidiar decisões em saúde: Mapear barreiras do contexto nacional para orientar gestores públicos, profissionais de saúde e políticas de suporte.

  • Transformar vivências em evidência: Oferecer respaldo científico para o advocacy e para o fortalecimento de políticas públicas.

Barreiras Funcionais e a Perda da Independência Diária

A transição para o uso de tecnologias assistivas e cadeiras de rodas marca uma mudança profunda na autonomia. Enquanto a perda da mobilidade atinge cerca de 39,3% do foco relatado no público pediátrico e 36,7% no adulto, o avanço da doença afeta tarefas diárias cruciais.

 

Dificuldades prioritárias em crianças:

  • Mobilidade (39,3%): Fraqueza nos membros e limitações de locomotiva.

  • Funções Neuromusculoesqueléticas (25,0%): Dificuldades na motricidade fina, a exemplo do manuseio de talheres, lápis ou objetos.

  • Autocuidado (14,3%) & Funções Sistêmicas/Respiratórias (7,1%): Demandas de suporte respiratório e assistência no dia a dia.

Ranking de Dificuldades (público pediátrico): Limitações funcionais e da vida diária

 

Pergunta 1: Quais são as principais dificuldades funcionais e nas atividades da vida diária que seu filho (pediátrico) enfrenta como consequência da Atrofia Muscular Espinhal tipo 3 (AME III)?

Infográfico dividido em duas secções. A secção esquerda apresenta um diagrama que distribui 28 itens por categorias de saúde e impacto na vida, destacando-se a mobilidade (39,3%) e as funções neuromusculoesqueléticas (25%). A secção direita exibe um gráfico de barras horizontais intitulado "Pediátrico" com 5 prioridades, demonstrando que a fraqueza muscular nos membros inferiores e superiores regista as menores pontuações médias (2,2), o que representa uma maior prioridade.

Dificuldades prioritárias em adultos:

  • Mobilidade (36,7%): Limitações severas de locomoção e de transferências, a exemplo de sentar e levantar.

  • Funções Neuromusculoesqueléticas (24,1%): Fraqueza muscular progressiva e fadiga crônica ao longo do dia.

  • Autocuidado / Self-care (21,5%): Dependência para higiene pessoal, banho e atividades diárias.

  • Vida Doméstica (5,1%) & Suporte Respiratório (1,3%): Necessidade de adaptações e suporte como BiPAP/apnéia do sono.

Ranking de Dificuldades (público adulto): Limitações funcionais e da vida diária

 

Pergunta 1: Quais são as principais dificuldades funcionais e nas atividades da vida diária que você (adultos) enfrenta como consequência da Atrofia Muscular Espinhal tipo 3 (AME III)?

Infográfico dividido em duas secções. A secção esquerda apresenta um diagrama que distribui 79 itens por categorias de impacto, destacando-se a mobilidade (36,7%), as funções neuromusculoesqueléticas (24,1%) e os autocuidados (21,5%). A secção direita exibe um gráfico de barras horizontais intitulado "Adulto" com 6 prioridades, demonstrando que a perda ou dificuldade do movimento pela fraqueza muscular regista a menor pontuação média (1,88), o que representa a maior prioridade.
Impacto da AME tipo 3 em diferentes áreas da vida

Se no aspecto físico a progressão é contínua, no âmbito social a AME Tipo 3 se manifesta de formas completamente distintas ao longo da vida.

 

Impacto Psicossocial

Gráfico de barras horizontais que apresenta dados percentuais sobre o impacto psicossocial, com a seguinte distribuição: Isolamento Social com 45%, Impacto na Saúde Mental com 25%, Barreiras Educação/Emprego com 20% e Sobrecarga do Cuidador com 10%.

Na infância, o impacto é predominantemente psicossocial e emocional. Metade de todas as apreensões relatadas pelos cuidadores está ligada à saúde mental das crianças, que enfrentam o olhar de julgamento dos colegas, a frustração de não conseguir participar de atividades físicas e um sentimento precoce de insegurança e medo de cair.

Ranking de dificuldades (público pediátrico)

 

Pergunta 2: Quais áreas da vida do seu filho (pediátrico) você considera que a doença tem maior impacto e por quê?

Infográfico dividido em duas secções. A secção esquerda exibe 24 itens distribuídos por categorias, destacando-se as funções mentais - emocional (50%) e as interações e relacionamentos interpessoais (25%), em redor do ícone de uma criança com um balão azul. A secção direita apresenta um gráfico de barras horizontais intitulado "Pediátrico" com 6 prioridades, no qual "Lidar com o julgamento, preconceito e exclusão dos colegas" regista a menor pontuação média (2.0), o que indica ser a maior prioridade.

Na vida adulta, o cenário se expande para barreiras estruturais, econômicas e atitudinais. O adulto com AME Tipo 3 precisa lidar com a falta de acessibilidade em locais públicos e transportes, o preconceito velado que questiona sua capacidade cognitiva no ambiente de trabalho e os custos astronômicos envolvidos no transporte adaptado, contratação de cuidadores e fisioterapia. Viver com a doença na fase adulta muitas vezes significa comprometer a maior parte da própria renda apenas para garantir condições básicas de higiene e mobilidade.

Ranking de Dificuldades (público adulto)

 

Pergunta 2: Quais áreas da sua vida você (adultos) considera que a doença tem maior impacto e por quê?

Infográfico dividido em duas secções. A secção esquerda apresenta um diagrama que distribui 64 itens por categorias em redor da silhueta de um adulto, destacando-se as funções neuromusculoesqueléticas e relacionadas com o movimento (17,2%) e a vida comunitária, social e cívica (14,1%). A secção direita exibe um gráfico de barras horizontais intitulado "Adulto" com 7 prioridades, no qual as dificuldades económicas registam a menor pontuação média (3.00), o que indica ser a maior prioridade.
O que os Dados Revelam Através de Histórias Reais

Os relatos coletados no estudo demonstram na prática o significado das barreiras mapeadas.

"A dificuldade dela hoje é subir escada, que exige um pouquinho de força... e quando senta, tem dificuldade na hora de levantar."

— Mãe de paciente pediátrica (12 anos) (RODRIGUES et al., 2025) 

 

"Hoje, o que me limita mais é não poder fazer minha própria higiene... Eu não caminho, então as forças das pernas são praticamente nenhuma. Meu braço não ergue acima da cabeça."

— Paciente adulta (44 anos) (RODRIGUES et al., 2025) 

 

"Eu já me coloquei na ponta do lápis... eu gasto mais ou menos 70% do que eu ganho só para viver, só para poder estar sentada na minha cadeira, tomada banho, com a minha fisioterapia feita..."

— Paciente adulta (44 anos) (RODRIGUES et al., 2025)

Caminhos para Transformar a Assistência na AME Tipo 3

A AME Tipo 3 é frequentemente interpretada apenas pela sua dimensão motora, mas os achados deste estudo deixam evidente que a condição oferece graves barreiras emocionais para as crianças e profundos obstáculos estruturais e socioeconômicos para os adultos. Trata-se de uma jornada marcada por um esforço físico constante, mas também por batalhas diárias contra o isolamento, a dependência econômica e a falta de acessibilidade.

 

Compreender que o impacto da doença se transforma com o passar dos anos é o primeiro passo para reorganizar a forma como a sociedade e o sistema de saúde acolhem essas pessoas. O suporte não pode se limitar aos momentos de crise ou a testes de função motora estáticos; ele exige uma abordagem holística, contínua e multidisciplinar, capaz de olhar para a saúde mental das crianças, para a autonomia dos adultos e para a sustentabilidade financeira das famílias.

 

Quando a experiência direta dos pacientes deixa de ser apenas um relato informal e se transforma em evidência científica estruturada, ela ganha a força necessária para promover mudanças reais. Quebrar barreiras físicas, combater o capacitismo e garantir o acesso amplo a recursos que promovam a independência são passos urgentes para que as pessoas com AME Tipo 3 possam não apenas resistir à progressão da doença, mas exercer plenamente o seu papel na sociedade.

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Referências: 

1-RODRIGUES, Cristina Guimarães; NICOLAO, Vanessa; TOBARUELLA, Flávia Sauer; COLERIDGE, Juliana; GEREZ, Nayara; TIGUMAN, Gustavo Magno Baldin. Functional and social burden of spinal muscular atrophy type 3 in Brazil: a mixed-methods patient-centered study. In: ISPOR 2026, 2026, Philadelphia. Poster Session. Philadelphia: ISPOR, 2026. Pôster PCR64. Disponível em: https://www.ispor.org/heor-resources/presentations-database/presentation-cti/ispor-2026/poster-session-2-4/functional-and-social-burden-of-spinal-muscular-atrophy-type-3-in-brazil-a-mixed-methods-patient-centered-study. Acesso em: 1 set. 2026. 

2- RODRIGUES, Cristina Guimarães; OLIVEIRA, Eliane Costim Paixão; TOBARUELLA, Flávia Sauer; SERPA, Murilo; GEREZ, Nayara. AME Tipo 3: percepção de pacientes e cuidadores sobre impactos funcionais e sociais. In: CONGRESSO INAME, 2025. Pôster. INAME, 2025.

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